Madrugada em Ursa Maior
Tem dor que a gente não guarda no bolso não é porque não quer, e sim porque não cabe.
Surge um breve desespero quando se procura solução e ela não é prontamente encontrada. No sentido literal há vários meios de encontrar as saídas e os incontáveis por quês que te tiram o sono, porém na prática real não é bem assim. Nem os que se consideram pós-graduados na arte das relações humanas possuem as manhas de descobrir, de fato, o que é que há por detrás de nossos olhos. Porque o que se reverbera na verdade são as palavras, pronunciadas na eloquência mais fiel possível, para que o destinatário se torne um porto, onde o remetente possa ter o abrigo necessário. Até partir e abandonar o lugar que tanto quis e que o acolheu.
Há inúmeros portos abandonados por aí. Depois de desbravados e utilizados, para nada mais servem, e só lhes resta apodrecer. Até mesmo a melhor madeira apodrece quando não é cuidada da maneira que deve ser. Até mesmo as estacas mais profundas se tornam danosas quando não há cuidado necessário. ”Cuidado”, palavra que exprime atenção, alerta, que salva vidas, relacionamentos e os que se encorajam mar adentro em suas buscas incansáveis. Em alto mar a vida se torna redundância e ela própria vira isca.
Eu não sou o mar. Eu não sou o barco. Eu não sou o cuidado. Eu sou o cais, e eu vivo com os pés na lama.
Já não bastasse a sujeira natural que tenho, o mundo vem depositar parte de seu lixo no lugar mais limpo que possuo. A dor que tento colocar no bolso é o fruto amargo desse depósito errado e cruel, que ocupa a morada que tem como residente a simplicidade e o amor. Mas eu tenho a cada novo dia a possibilidade de jogar fora os lixos que deixaram em mim. Eu vivo com os pés na lama, mas nem por isso eu deixei de olhar para as estrelas.
Para os lugares da minha alma que o mundo ressecou eu utilizo do mesmo cuidado que gostaria de receber, só assim consigo retalhar o que em mim está danificado. Para conviver e lidar com o absurdo eu o vivo à risca, no fio da navalha, porque sei que um dia isso tudo vai se justificar. É a esperança que eu tenho ao alcance da mão, viver o absurdo pra que ele deixe de ser absurdo. O que nos realiza não é o reconhecimento que nos vem do outro. Ele é complemento. O que realmente conta é o que sabemos de nós mesmos.
Resolvi descredenciar algumas prioridades. O tempo e a vida se encarregaram de me mostrar o que realmente importa.
Quando a gente encara a noite como o dia da alma, muitas coisas mudam de significado.
Felizes são os burrus, os ingenuos, e os filha-da-puta!